Como tudo começou...

 

"(...) Conheci o Roger quando eu tinha dezessete anos. 

  

Filho do Dr. Rogério Fernandes, um dos melhores advogados tributaristas de São Paulo, e colega de faculdade do papai, ele se tornou presença constante na nossa casa depois que a mãe, com quem ele vivia desde os três anos, morreu por causa de um aneurisma, fazendo-o voltar a morar com o pai, o que parece tê-lo entristecido tanto quanto a morte da Dona Laura. 

 

Garoto de poucas palavras, mas muitos olhares, ele parecia ter muito mais perguntas a fazer do que respostas a oferecer, o que, confesso, me decepcionava um pouco, mas não o suficiente para me manter distante de todos aqueles olhares... às vezes tristes, mas sempre profundos e interrogativos... por vezes, cálidos... e nessas vezes eu me perdia neles, me afogava na calmaria e na escuridão dos olhos dele, e, vez ou outra, precisava me lembrar de voltar a respirar.

  

Durante as intermináveis reuniões entre o Dr. Rogério e papai (que acabaram se tornando sócios - Mattarazzo et Fernandes Advogados Associados), ficávamos na varanda... ele sempre com fones nos ouvidos, conectado a um disc-man surrado que mais parecia uma extensão do seu corpo; e eu sempre com um Kit Revell a terminar, enfiada num macacão puído e sujo de tinta, ou rabiscando meu velho bloco de desenhos. Ficávamos em silêncio por horas... as palavras eram aparentemente desnecessárias. Às vezes ele falava: - Você vai me desenhar um dia, Nanda? Poderia ser seu modelo por horas, se você quisesse... E eu, tímida demais pra responder qualquer coisa menos estúpida, balbuciava: - Só desenho construções, Roger...

 

Aí ele sorria. Nossa! Como o sorriso dele era lindo, largo! Quando ele sorria, não interessava o motivo, meu dia ganhava outras dimensões. E, por vezes, me falava:  Você deveria ser arquiteta, então! E seus projetos vão refletir todo o brilho dos seus olhos! E então - ele ria, meio sem jeito -, quando eu me livrar das garras do Dr. Rogério, você vai projetar a minha casa... e não se esqueça de projetar também um lugarzinho pro meu labrador chocolate...

 

O labrador chocolate é o que possui a pelagem mais bonita da raça, e seus olhos são sempre castanhos... Li isso uma vez na internet.

 

O relacionamento do Roger com o pai nunca foi dos melhores... acho que ele nunca lidou bem com o divórcio dos pais, e nem a morte da Dona Laura conseguiu unir pai e filho outra vez... eles eram como dois estranhos vivendo sob um mesmo teto, como água e óleo no mesmo copo: dividiam um espaço comum, mas não se misturavam. Nunca. A coisa piorou, de acordo com papai, quando o Dr. Rogério obrigou o Roger a prestar vestibular para Direito ou Economia... - Profissões de verdade - dizia ele.

 

O Roger havia se inscrito para o vestibular de música na UNESP, mas o Dr. Rogério não permitiu nem que ele fizesse a prova. Ele ficou arrasado. Nunca disse nada, mas eu sei que ficou... - Você vai dar aulas de piano para filhinhos da mamãe, como a madame Samovar?! Eu sempre disse à sua mãe que essas aulas de piano tinham sido uma péssima idéia...

 

E foi assim que o Roger acabou cursando a Faculdade de Economia da USP (ele não seguiria nunca os passos do pai, apesar de nutrir um respeito profissional maluco pelo meu, também advogado. O “Fernandes e Filho Advogados Associados” jamais existiria, a não ser nos sonhos do Dr. Rogério). Quando nos conhecemos, ele estava no 3º ano, mas eu nunca o vi lendo ou escrevendo nada relacionado à faculdade... só haviam rabiscos de melodias, letras inacabadas de canções, ou versos de poesia nos seus cadernos. Eu folheava os cadernos e os livros dele às vezes, quando ele não estava por perto, claro! 

 

 

Uma vez encontrei uma folha dobrada no meio de um exemplar nunca lido (pelo menos não pelo Roger) de "O Capital"... nela, meu nome estava escrito em todas as formas e cores, e, num canto da folha, estavam rabiscados quatro versos, que mais tarde descobri serem de uma canção, inspirada na obra "Fábula de Amor", de Hermann Hesse[1][1]:

 

“Y un día passaram por alli

Los ojos de una niña

Que le habian robado el cielo

Lo brillo de dos estrellas” [2][2]

 

Irracional e automaticamente, guardei a folha no meu bloco de desenhos, e toda noite lia e relia os versos rabiscados... meu espanhol era suficiente para entender o que eles diziam, e meu coração sabia a que olhos eles se referiam... É lógico que eu nunca contei ao Roger que havia surrupiado a tal folhinha. Ele deve ter achado que perdeu... ou simplesmente se esqueceu dela. 

  

Depois disso, não usava mais meu macacão puído ... (...)"



[1][1] HESSE, Hermann. “O livro das fábulas”. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1970.

 

[2][2] "E um dia passaram por ali/ os olhos de uma menina/ que haviam roubado do céu/ o brilho de duas estrelas"

Encontros e Desencontros

Olá...

Meu nome é Fernanda, tenho 34 anos, sou arquiteta, trabalho com decoração de ambientes infantis e escrevo uma coluna sobre o assunto em duas revistas sobre decoração de interiores. Além disso, canto numa banda de rock, chamada "The 30´s". Moro em São Paulo com um labrador chocolate chamado Téo. Morei em Londres por 3 anos, mas voltei ao Brasil por causa da morte do meu pai, um grande advogado e um ser humano maravilhoso. Agora estou aqui...

Mas por que criei um blog?

Quando era adolescente, vivi um grande amor... que acabou, me fez mudar de país, voltou mais forte, e aparentemente acabou de novo, virando uma grande amizade, mas criando muita confusão entre esses acontecimentos. Aqui, pretendo contar, aos poucos, os mais de 15 anos dessa estória... não para agradar a alguém, mas para desabafar mesmo. Espero que curtam...

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